
HORA DE BATER O PONTO
PARA HOJE…
Saúde mental no trabalho deixou de ser pauta de cultura e virou obrigação legal. A NR-1 atualizada exige que as empresas mapeiem, documentem e gerenciem riscos psicossociais até 26 de maio de 2026. O problema é que a boa intenção não adianta muito (e dados apontam uma distância gigantesca entre essa intenção e a conformidade com a lei).

Saúde mental dos colaboradores
A Organização Mundial da Saúde e a Organização Internacional do Trabalho estimam que ansiedade e depressão provocam uma perda equivalente a 12 bilhões de dias úteis por ano, com custo aproximado de US$ 1 trilhão em produtividade global.

Esse número já circula há anos em apresentações de RH, mas o que está mudando é que o Brasil tornou o problema juridicamente exigível. Uma hora a conta chega…
A atualização da NR-1, publicada pela Portaria MTE nº 1.419/2024, incluiu riscos psicossociais como estresse crônico, sobrecarga, assédio, falta de reconhecimento e ausência de apoio da liderança no Programa de Gerenciamento de Riscos.
Com prazo de adequação até 26 de maio de 2026, a norma não pergunta se a sua empresa tem programa de bem-estar. Ela pergunta se o risco está mapeado, documentado e com plano de ação. A NR-1 está de olho!
78% dizem se importar, mas só 23% fazem algo a respeito
Uma pesquisa nacional da Heach Recursos Humanos com 1.730 profissionais de RH, que foi citada por grandes portais da área como Gestão&RH e Exame, revelou que 68% não compreendem claramente o que mudou com a atualização da norma; 62% não possuem nenhum indicador formal para monitorar riscos psicossociais; e 58% admitem que só reagiriam após afastamentos, denúncias ou ações judiciais. Números que arrepiam qualquer RH.
Curiosamente, 78% das empresas dizem se preocupar com saúde mental, mas apenas 23% têm política formal, orçamento dedicado e indicadores estruturados.
Uma interpretação desses dados é que muita empresa parece estar achando que a NR-1 avalia intenção, mas se esqueceram que ela avalia documentação.
O maior risco das empresas pode ser os próprios líderes
Segundo essa mesma pesquisa da Heach, 49% dos profissionais de RH apontam o comportamento da liderança como o principal fator de adoecimento emocional das equipes.
O Gallup State of the Global Workplace 2025 reforça: gestores respondem por 70% da variância no engajamento das equipes, e o engajamento global de gestores caiu de 30% para 27% entre 2023 e 2024, o maior recuo entre todos os grupos monitorados.
Com a NR-1, o comportamento do gestor deixa de ser questão de cultura e passa a ser item auditável. 67% dos líderes nunca passaram por avaliação comportamental ou psicológica estruturada, e 54% não receberam treinamento para lidar com conflitos ou pressão emocional, segundo a Heach.
Em outras palavras: manter um líder despreparado e que impacta seus liderados pode ser usado como evidência em ações trabalhistas.
O que a lei quer, sem rodeio
A NR-1 atualizada exige quatro coisas: incluir os riscos psicossociais no inventário do PGR, criar mecanismos formais de escuta dos trabalhadores, documentar as medidas preventivas adotadas e revisá-las a cada dois anos ou após mudanças organizacionais relevantes.
Vale separar o que é obrigação legal do que é boa prática:
Avaliação psicológica da liderança e políticas formais com orçamento dedicado reduzem risco jurídico e operacional, mas não são o piso mínimo exigido. O piso é o PGR.
Muitas empresas tratam as boas práticas como a totalidade da agenda e ignoram justamente o que a norma cobra.
Quanto custa não fazer nada?
O Relatório Deloitte sobre Saúde Mental e Empregadores 2024, baseado em pesquisa com 3.156 trabalhadores e revisão de 26 estudos sobre retorno de investimento em bem-estar, estima retorno médio de £4,70 para cada £1 investido em iniciativas de saúde mental no trabalho. 63% dos trabalhadores apresentam ao menos uma característica de burnout (o contexto é do Reino Unido, porque ainda não há equivalente metodologicamente comparável publicado para o Brasil até o momento desta edição, mas entendemos que o paralelo é válido).
No Brasil, o INSS registrou mais de 500 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025, e esses números batem recorde atrás de recorde em relação aos anos anteriores.
As empresas que vão se destacar daqui pra frente
A narrativa mais comum sobre a NR-1 gira em torno de punição, mas esse é o argumento mais básico para agir.
As primeiras empresas a documentarem bem o PGR psicossocial vão criar diferencial em atração de talentos. O candidato vai começar a perguntar sobre isso, assim como passou a perguntar sobre trabalho remoto e saúde mental depois da pandemia. O que hoje é conformidade legal provavelmente vira, em um ou dois anos, critério de escolha de empregador.
A pergunta que queremos deixar pra você ao final dessa edição, como de costume, é: a sua empresa está construindo um PGR psicossocial de verdade ou está confundindo programa de bem-estar com conformidade legal? Quão intencional está sendo a mitigação desse risco?

→ Essa reportagem reúne especialistas em psiquiatria discutindo as verdadeiras causas do burnout no trabalho e mostra que o esgotamento profissional vai muito além da sobrecarga de tarefas.
→ A saúde mental está se tornando a nova epidemia silenciosa? Para muitos brasileiros, ela supera até mesmo preocupações com o câncer. Leia mais aqui.

Como está a saúde emocional de quem cuida das pessoas dentro das empresas?
A Flash ouviu cerca de 900 profissionais de Recursos Humanos e reuniu dados inéditos e, em muitos casos, alarmantes sobre a saúde mental desses profissionais.
O estudo também mostra como o RH enxerga o avanço da Inteligência Artificial na gestão de pessoas e analisa os impactos da atualização da NR-1. Você pode liberar seu acesso aqui.

INDICAÇÕES PARA A SEMANA
→ 📖 PARA LER: Esse livro traz uma das principais referências acadêmicas sobre segurança psicológica no trabalho. A autora, professora da Harvard Business School, pesquisou o tema por mais de 20 anos e chegou a uma conclusão importante.
→ 🎧 PARA OUVIR: Esse podcast explora psicologia organizacional aplicada ao ambiente de trabalho, trazendo conversas e estudos sobre liderança, cultura, produtividade e bem-estar nas empresas.
O que você achou da edição de hoje?
Por hoje é isso. Ficamos muito felizes por você ter acompanhado esse segundo episódio da nossa série. Esperamos que você tenha saído mais informado e inspirado. Até a próxima semana!


