O TRABALHO DE UM NOVO PONTO DE VISTA

Boa tarde. O RH virou o departamento que mais empurra IA pra dentro da empresa, só que também é o segundo mais castigado pela fadiga que ela produz. Tem algo errado nessa equação.

PARA HOJE…

Três notícias que mexem com a estrutura do trabalho a partir de pontos bem distintos: o currículo perdendo função como instrumento de seleção, a fadiga cognitiva de quem opera IA o dia inteiro, e a polêmica do termo “soft skills”.

Cada uma força uma decisão diferente na cadeira de quem lidera gente.

Para se inspirar: Esses são os CHROs mais renomados do país em 2026 segundo a Forbes. Veja aqui.

Para ficar de olho: Meta demite 8.000 e reloca 7.000 para IA crescendo 33% no trimestre — quando corte e crescimento deixam de ser opostos. Veja aqui.

Para refletir: Apenas 18% dos profissionais de RH dominam novas exigências da NR-1 (que entrem em vigor em maio). Veja aqui.

A IA tá provando que o RH tava certo o tempo todo.

Por anos, o RH bateu na mesma tecla: comunicação, julgamento, empatia, pensamento crítico são tão importantes quanto habilidade técnica…

  • E por anos, o resto da empresa fingiu que concordava e cortava o orçamento de treinamento na primeira aperto.

Aí veio a IA pra mostrar que quanto mais ela entra pra fazer a parte técnica do trabalho, mais óbvio fica que o que separa um profissional bom de um profissional excelente é justamente o que o RH sempre defendeu:

Quem usa IA bem é quem faz pergunta certa, julga a resposta, comunica o resultado, decide com bom senso. Tudo isso é soft skill.

O problema é que, enquanto isso, ainda tem muito RH discutindo internamente como chamar essas competências (pelo menos é isso que uma matéria do HR Brew mostra de forma quase cômica).

Líderes de RH dizem que "soft" tem conotação negativa, que diminui o valor percebido, que talvez "durable skills", "core skills" ou "human skills" funcionem melhor. Chris Ernst, CLO da Workday, diz que evitou usar o termo "soft skills" durante 30 anos de carreira.

Enquanto o RH renomeia, outras áreas pegam o crédito. Times de transformação digital, consultorias, líderes de operação… Todos estão começando a chegar no C-level com a narrativa de que IA exige habilidades humanas, e mostrando dado pra provar.

Quem corre o risco de ficar de fora dessa conversa? Quem deveria estar no centro dela, o RH.

Será o fim dos currículos?

A pesquisa que a Robert Half divulgou em abril um dado que pode te surpreender: 66% dos gestores de contratação no Brasil afirmam que a IA generativa está aumentando o volume de currículos falsos ou exagerados.

Outros 49% dizem que ela está ampliando o número de candidatos sem qualificação real, e 45% que a IA facilita a criação de identidades profissionais falsas.

A reação esperada seria policiar candidato, botar detector de IA na triagem, escrever aviso no edital, “multar” quem usa… Só que a pesquisa traz outro dado: 70% dos gestores ainda não implementaram nenhuma medida pra lidar com o risco.

  • Mas a leitura que queremos trazer vai além: o currículo pode estar morrendo como instrumento de seleção. Vamos pensar juntos: se IA escreve por todo mundo, com a mesma fluência e o mesmo tom, o currículo perde a única função que tinha: separar quem sabe organizar uma trajetória de quem não sabe.

Fernando Mantovani, diretor geral da Robert Half pra América do Sul, é direto na própria nota: "Recrutadores especializados devem estar preparados para identificar inconsistências com entrevistas aprofundadas, validando experiências reais e avaliando competências essencialmente humanas, como pensamento crítico e comunicação, que ferramentas de IA não conseguem replicar."

Traduzindo: o peso do funil precisa estar mais pra dentro e menos na porta de entrada. Menos triagem por papel, mais teste prático, entrevista aprofundada, simulação de problema, referência real. O que está nessa ponta vira mecanismo de proteção contra IA.

E ainda tem uma outra camada também incômoda para os RHs: boa parte dos processos seletivos hoje não testam competência, testam narrativa bem escrita. Se a sua seleção tem etapa de demonstração prática de habilidade, o candidato que usou IA pra escrever o currículo até passa do primeiro filtro, mas não chega na contratação. O problema só aparece em processos que confiam demais no que está no papel.

Para refletir:

  • Olhando pro seu funil de seleção hoje, quantas etapas dependem essencialmente do que está escrito no currículo, e quantas dependem de demonstração prática?

  • Se você precisasse contratar amanhã pra uma posição crítica e a IA não existisse, qual etapa do seu processo mudaria de peso?

  • Que percentual do seu time atual passaria de novo pelo processo seletivo que sua empresa aplica hoje?

Qual é a relação entre o RH e a IA que sua empresa está adotando?

Há pouco mais de um ano, o BCG publicou um dado que foi pouco comentado, mas que sustenta toda a discussão atual: lá atrás, quando uma empresa estava experimentando com IA, 70% dessas experimentações estavam acontecendo dentro do RH. O principal caso de uso é aquisição de talentos.

Em março de 2026, o mesmo BCG publicou na Harvard Business Review um estudo com 1.488 trabalhadores em tempo integral de grandes empresas dos EUA, e o resultado é uma ironia em forma de número.

Marketing é o departamento mais afetado pelo que os pesquisadores chamaram de "AI brain fry", a fadiga cognitiva pelo uso e supervisão excessiva de ferramentas de IA, com 25,9% dos profissionais relatando o sintoma. O segundo da lista é RH, com 19,3%. Engenharia vem depois, com 18%. Product managers, 9%. Jurídico fecha a fila com 6%. O HR Brew detalhou os números.

A leitura mais incômoda vem da própria autora do estudo. Gabriella Kellerman, Expert Partner e Director do BCG, em entrevista à UNLEASH, disse que o RH está no "leading edge" da adoção de IA, transformando a si próprio com IA enquanto está na linha de frente da adoção dela pela força de trabalho.

Ou seja, o departamento que conduz a entrada da tecnologia na empresa é o segundo mais castigado pela fadiga que essa entrada produz.

Por que isso acontece?

Leah Buck, fundadora da WhyWork, citada pelo HR Brew, dá uma explicação direta: "Ter que constantemente prover supervisão e tomar decisão sobre a qualidade do que a IA cospe gera fadiga de decisão. É uma tarefa inerentemente exaustiva do ponto de vista psicológico." E a parte que mais energiza humanos (criatividade, design, estratégia) está sendo automatizada. Sobra, então, o que cansa: revisão, coordenação, validação, decisão.

O estudo também mostrou: produtividade sobe de uma pra duas ferramentas de IA, mas com a terceira, o ganho diminui e da quarta em diante, começa a cair. Ter “10 ferramentas” acaba virando uma desorganização cara.

Para refletir:

  • Quantas ferramentas de IA o seu time usa hoje no fluxo, e em quantas dessas ferramentas você tem clareza sobre o que ela substitui e o que ela acrescenta de carga de supervisão?

  • Se o RH é o "leading edge" da IA na empresa, qual é a política clara que vocês já têm sobre uso, expectativa de produtividade e horas livres de IA?

  • 📖 PARA LER: Um em cada cinco funcionários não economizou tempo nenhum com IA no primeiro trimestre de 2026 — e as empresas sem estratégia centrada em pessoas vão perder seus melhores talentos em IA até 2027, prevê o Gartner. Leia mais aqui.

  • 🎧 PARA OUVIR: Um podcast com insights diários sobre RH e IA em poucos minutos. Escute aqui.

  • 🗞️ PARA VER: Como a Diretora de RH da Ford Brasil exporta talentos. Veja aqui.

(Só disponível em inglês)

Pra quem quer aprofundar o tema da edição de hoje, recomendamos esse livro.

A tese central do livro é que 94% dos problemas de uma organização são causados pelo sistema, não pelas pessoas.

O autor chama esse sistema de "operating system": as regras, rituais e crenças que governam como o trabalho acontece de fato, independente do que o organograma diz. Dialoga em cheio com o que esta edição levanta: um funil de seleção que confiava demais no papel, um RH sobrecarregado por um modelo de adoção de IA sem desenho, e um mercado de benefícios com distorções que o decreto precisou corrigir.

OPINIÃO DO LEITOR

Deixe sua sugestão de melhoria aqui, e elas irão diretamente para nossos redatores. Feedbacks são SEMPRE bem-vindos.

Por hoje é isso. Ficamos muito felizes por você ter acompanhado o décimo segundo episódio da nossa série. Esperamos que você tenha saído mais informado e inspirado. Até a próxima semana!

Recommended for you

View all
caret-right