O TRABALHO DE UM NOVO PONTO DE VISTA

Boa tarde. O trabalho está mudando mais rápido do que muitas empresas conseguem admitir, só que mais devagar do que muita gente precisa. O objetivo dessa edição é te ajudar a entender melhor tudo que está mudando e o que sua empresa pode fazer pra não ficar pra trás.

PARA HOJE…

Nesta edição, trouxemos 3 sinais importantes para os líderes de RH.

Primeiro, a IBM está aumentando a contratação de profissionais de entrada justamente nas funções que muitos diziam que a IA iria substituir.

Depois, uma pesquisa mostra que a Geração X pode ter um papel menos barulhento, mas importante, na ponte entre gerações no trabalho.

E, no Brasil, o novo Relatório de Transparência Salarial mostra uma tensão conhecida: mais mulheres estão no mercado, mas a desigualdade de remuneração segue persistente.

No fundo, os 3 temas apontam para a mesma direção: o futuro do trabalho não será resolvido só com ferramenta, discurso ou intenção. Ele vai depender de desenho organizacional e um papel cada vez mais ativo do RH.

A IBM está contratando quem a IA mais ameaça substituir?

Durante muito tempo, a ideia de contratar profissionais em começo de carreira vinha com um pacote relativamente conhecido: treinar, delegar tarefas mais operacionais, formar pipeline e, com o tempo, transformar essa base em talento sênior.

A IA mexe justamente nessa lógica.

A IBM, segundo sua CHRO Nickle LaMoreaux, está “triplicando” a contratação de profissionais de entrada em um momento em que o mercado para jovens trabalhadores segue mais travado. O detalhe importante: isso inclui funções como desenvolvimento de software, justamente uma das áreas mais citadas quando se fala em tarefas que a IA consegue executar.

Mas a novidade vai além do volume de contratação e entra também no redesenho da função. LaMoreaux explicou que desenvolvedores iniciantes ainda programam e testam, mas agora com apoio de IA. Ao mesmo tempo, passam mais tempo conversando com marketing, ouvindo clientes, acelerando roadmaps e construindo produtos novos, não apenas mantendo produtos existentes.

Em outras palavras: o cargo de entrada deixa de ser uma esteira de execução e começa a virar uma escola de contexto, julgamento e proximidade com o negócio.

É uma mudança relevante para o RH, porque desloca a conversa pra além de “quais tarefas a IA substitui?” e leva pra uma pergunta nova (e muito relevante): “quais experiências continuam formando bons profissionais quando a IA assume parte das tarefas antigas?”

  • LaMoreaux resume o desafio com uma frase curta: será preciso reescrever todos os empregos e essa provavelmente será a parte menos confortável para as empresas, porque reescrever cargo não é só atualizar job description. Reescrever os cargos envolve explicar para a liderança por que ainda vale investir em talentos iniciantes quando a tecnologia parece assumir parte do trabalho deles com mais velocidade e sem passar pelo processo tradicional de formação.

A resposta da IBM parece ser: porque a vantagem não está em contratar profissionais júniores para fazer o que a IA faz. Está em formar pessoas para fazer o que a IA não entende sozinha: conectar cliente, produto, prioridade, contexto e valor.

Para refletir: se a IA assumisse as tarefas mais repetitivas da sua empresa amanhã, que experiências continuariam formando bons profissionais?

Na sua empresa, o que a IA está mais mudando?

A diversidade avançou na contratação, mas a desigualdade se manteve na remuneração.

O 5º Relatório de Transparência Salarial trouxe uma fotografia importante do mercado brasileiro. A participação feminina cresceu 11%, passando de 7,2 milhões para 8 milhões de mulheres empregadas nos estabelecimentos analisados. Entre mulheres negras, pretas e pardas, o crescimento foi de 29%, passando de 3,2 milhões para 4,2 milhões.

Esse é o avanço.

O ponto sensível é que a desigualdade salarial permaneceu praticamente estável. Mulheres recebem, em média, 21,3% a menos que homens no setor privado com 100 ou mais empregados. No salário mediano de contratação, a diferença passou de 13,7% em 2023 para 14,3%. No rendimento médio, foi de 20,7% para 21,3%.

O dado cria uma tensão conhecida para quem trabalha com diversidade: contratar mais pessoas de grupos sub-representados é necessário, mas não resolve sozinho o problema, primeiro porque entrada não é permanência e, segundo, porque representatividade no quadro não é igualdade de remuneração.

O próprio relatório mostra avanços em políticas internas entre 2023 e 2025: mais jornada flexível, mais auxílio-creche, mais licenças estendidas, mais planos de cargos e salários e mais empresas afirmando promover mulheres. Ainda assim, os resultados de remuneração continuam mostrando uma distância relevante.

Essa é a parte que incomoda: a empresa pode estar fazendo mais coisas certas e, mesmo assim, não estar mexendo no núcleo da desigualdade.

Porque o problema desse núcleo vai além da contratação e está nos critérios de promoção, nas faixas salariais, na calibragem de desempenho, no acesso a projetos estratégicos, nas conversas informais sobre potencial e na velocidade com que diferentes pessoas são vistas como “prontas” para crescer.

Para corrigir essa diferença, o relatório estima que seria necessário adicionar R$ 95,5 bilhões à massa de rendimentos das mulheres. O Ministério do Trabalho e Emprego diz que isso representa “custo para as empresas” e, talvez por isso, transparência salarial seja tão desconfortável: porque ela tira o tema do campo da intenção e coloca na planilha.

  • Uma forma de medir diversidade é pela entrada das pessoas nas empresas, mas outra forma também muito importante que não pode ser descartada é a velocidade com que elas crescem depois que entram.

Para refletir: os critérios de promoção são claros o suficiente para reduzir vieses — ou dependem demais de percepção informal?

A Gen X pode ser a ponte entre quem desconfia da IA e quem confia demais

A discussão sobre gerações no trabalho costuma escorregar para caricaturas: Gen Z é sensível demais; Millennials querem propósito demais; Boomers resistem à tecnologia; e a Gen X fica no meio, quase como uma geração esquecida no organograma cultural da empresa.

Só que talvez seja justamente esse “meio” que torne a Geração X relevante.

Segundo o Mather Institute, a experiência da Gen X aparece entre a dos colegas mais jovens e mais velhos em temas como estresse, conexão social e uso de IA generativa. Na pesquisa citada pela HR Dive, profissionais da Gen X usavam IA no trabalho menos do que millennials, mas mais do que baby boomers; e confiavam nos conteúdos produzidos por IA mais do que boomers, mas menos do que gerações mais jovens.

Isso coloca a Gen X em uma posição interessante: próxima o suficiente da tecnologia para incentivar adoção, mas cética o suficiente para lembrar que output de IA precisa ser checado.

O dado mais útil, porém, talvez seja outro: mais de 70% dos respondentes de todas as gerações disseram gostar de aprender com colegas de outras idades. Surpresa!? Isso enfraquece a leitura preguiçosa do conflito geracional: a maioria não rejeita a convivência. O problema aparece quando a empresa transforma diferença em rótulo e rótulo em prática de gestão.

A própria pesquisa mostra que conflitos existem, especialmente entre Gen Z e millennials, mas também aponta que os temas de atrito passam por qualidade do trabalho, valores e uso ou proficiência tecnológica. Ou seja: o conflito não é simplesmente “idade” e sim, principalmente, expectativa desalinhada sobre o que é um bom trabalho, uma boa entrega e uma boa forma de colaborar.

  • Para o RH, a provocação é clara: gestão multigeracional não pode ser palestra sobre diferenças entre gerações. Isso ajuda pouco e, às vezes, reforça o problema. O trabalho mais importante é criar rituais, combinados e critérios que reduzam interpretação subjetiva.

Para refletir: quais conflitos na sua empresa são tratados como “geracionais”, mas talvez sejam apenas falta de clareza sobre padrão de entrega?

Esse livro mostra como decisões importantes podem variar mais do que deveriam; não por falta de intenção, mas por inconsistência nos critérios.

É uma leitura que conversa diretamente com os temas desta edição: quando uma empresa redesenha cargos, avalia talentos, promove pessoas ou tenta corrigir desigualdades, não basta ter bons valores no papel. É preciso reduzir o espaço para julgamentos soltos demais, combinados implícitos demais e decisões que parecem individuais, mas viram padrão organizacional.

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