O TRABALHO DE UM NOVO PONTO DE VISTA

Pela primeira vez em 22 anos, trabalhadoras e trabalhadores colocaram work-life balance acima de salário na hora de escolher um emprego.

A nossa aposta é de que isso não é só uma tendência da nova geração (até porque esse é um dado muito robusto, que considerou mais de 26 mil pessoas em 35 mercados diferentes).

O problema, e o assunto que vamos abordar nessa edição, é que a maioria das empresas ainda trata esse assunto de maneira superficial. Work-life balance não deveria ser uma pauta de wellness, mas sim de design organizacional. E o RH está no centro disso.

Todo mundo quer, mas quem realmente entrega?

"Equilíbrio entre vida e trabalho" é provavelmente a frase mais citada em pesquisas de engajamento, mas menos operacionalizadas na prática.

Todo mundo quer, mas quase ninguém consegue definir o que significa concretamente pra si mesmo, e raríssimas empresas sabem o que fazer com isso além de oferecer ginástica laboral, aplicativo de mindfulness e outros benefícios.

Começou-se a falar de work-life balance há mais de cinquenta anos… E a intenção é boa, mas o jeito como esse assunto está sendo abordado pode estar fazendo mais mal do que bem, porque “equilíbrio” pressupõe dois lados numa balança em competição constante.

Quando uma empresa internaliza isso como política, ela terceiriza um problema que ajudou a criar para a pessoa que vai tentar resolvê-lo sozinha.

A proposta dessa edição é mudar o conceito de "equilíbrio entre vida e trabalho" para "harmonia entre vida e trabalho", e mostrar qual deve ser o real papel do RH nessa história toda.

Quão clara é a fronteira entre seu trabalho e sua vida pessoal?

A psicóloga organizacional Jennifer Moss, autora de Unlocking Happiness at Work, aponta que desde a pandemia os trabalhadores perderam a capacidade de separar trabalho e vida pessoal com clareza.

Esse é um sintoma quase que universal: as fronteiras entre vida pessoal e profissional foram dissolvidas, parte de forma voluntária, parte imposta.

As pessoas se adaptaram ao trabalho remoto, o que fez muitas perderem a clareza da divisão entre vida e trabalho (a Jennifer chama isso de “hora do pijama”, citando o trabalho feito até tarde da noite ou nas primeiras horas do dia), e agora, com o retorno ao presencial, têm que enfrentar de novo questões como as horas necessárias para deslocamento ao trabalho.

Tudo isso vem corroendo o significado de equilíbrio e foi o que abriu espaço para a criação do conceito de harmonia entre vida e trabalho.

Um bom jeito de resumir o que é esse “work-life harmony” é dizer que é uma relação funcional entre trabalho e vida pessoal, onde os dois se sustentam em vez de competir.

E para você conseguir entender ainda melhor esse conceito, vale apresentarmos as duas principais categorias de “personagens que jogam esse jogo”:

Os dois tipos de profissionais: integradores e segmentadores

A pesquisadora Nancy Rothbard, de Wharton (essa da foto acima), identificou dois perfis básicos na relação entre as pessoas e essa fronteira entre trabalho e vida.

Os integradores não se incomodam com a sobreposição entre as duas áreas. Eles falam de trabalho em casa, respondem mensagens à noite sem sentir que estão invadindo o próprio descanso, gostam de eventos com colegas. Para eles, a integração é natural e prazerosa.

Já os segmentadores querem uma separação clara. Eles não trazem trabalho para casa e enxergam iniciativas de integração como algo que cruza uma linha que eles querem manter intacta.

  • Agora quer ver a surpresa nisso tudo?

  • O achado mais relevante da pesquisa da Nancy é que nem integradores nem segmentadores são mais comprometidos do que o outro.

  • São preferências pessoais, não indicadores de engajamento.

O papel do RH aqui deveria ser criar “cobertura política explícita” para quem não quer integrar. Isso passa por três caminhos concretos.

1️⃣ Calibrar critérios de avaliação para que presença além do horário nunca funcione como proxy de comprometimento. Se o sistema recompensa disponibilidade, ele vai sistematicamente punir os segmentadores, independentemente da entrega.

2️⃣ Garantir que benefícios funcionem para os dois perfis. Se a empresa tem academia interna, ofereça auxílio para academia externa. Se tem evento de integração, garanta que não participar não tem custo implícito na relação com o gestor (ou, se isso faz parte da cultura da empresa e é esperado, deixe explícito).

3️⃣ Treinar gestores para identificar o viés integracionista na leitura que fazem dos times. O risco mais frequente não é “o gestor exigir o extra mile”, e sim o gestor interpretar fronteiras como sinal de desengajamento e tomar decisões de carreira com base nisso.

2 perguntas pra você discutir na sua empresa:

  1. Na sua empresa, quem coloca fronteiras é lido como comprometido ou como pouco engajado? E quem alimenta essa leitura nas decisões de carreira?

  2. O que, concretamente, no design do trabalho da sua organização torna a harmonia impossível para a maioria das pessoas, independentemente do esforço individual?

Harmonia é responsabilidade da empresa.

Por quê?

Porque a empresa define a carga de trabalho, decide a frequência e o horário das reuniões, cria as expectativas de disponibilidade e projeta a cultura de urgência, onde tudo é para ontem e responder rápido é lido como comprometimento.

O indivíduo tenta se otimizar dentro de um sistema que já existe. Quando o sistema é disfuncional, tentar buscar harmonia vai ser, no mínimo, fazer uma gambiarra (que provavelmente vai falhar, seja em forma de afastamento, turnover silencioso ou queda de performance que ninguém consegue nomear).

A atualização da NR-1 traduz isso em linguagem regulatória: metas excessivas, jornadas longas, falta de autonomia e sobrecarga mental são agora riscos ocupacionais que todas as empresas brasileiras devem identificar e gerenciar. E a fiscalização da nova regra está quase valendo: a partir de 26 de maio de 2026 as empresas que não estiverem em conformidade legal serão multadas.

📊 Esse relatório completo do Workmonitor 2026, com dados por geração e mercado — útil para embasar conversas internas sobre atração, retenção e expectativas da força de trabalho.

→ 🎙 Esse episódio do podcast de Adam Grant, em que uma negociadora do FBI é entrevistada e conta como dizer não, e em que líderes contam como baniram e-mails fora do horário. O episódio que popularizou a distinção entre integradores e segmentadores.

📑 O manual do Ministério do Trabalho e Emprego para para orientar gestão de riscos ocupacionais nas empresas com início da fiscalização da NR-1.

(Tradução: Destravando Felicidade no Trabalho)

  • Esse livro desmonta a ideia de que bem-estar no trabalho é responsabilidade do indivíduo.

  • Mapeia os fatores organizacionais que determinam se as pessoas conseguem ou não funcionar bem no dia a dia.

  • Traz frameworks práticos para líderes de RH diagnosticarem o que está produzindo infelicidade estrutural, não apenas sintomática.

OPINIÃO DO LEITOR

Alguns comentários sobre a última edição:

  • “Me identifiquei com o que li e percebi que sempre estive no caminho certo, seja trabalhando em grandes holdings, multinacionais ou grandes governos. O que viam em mim como rebeldia era e é o caminho a ser seguido!”

  • “Incrível! De fácil leitura e com ótimas dicas e dados!”

  • “Excelente a matéria de capa. Foi ela que me chamou pela primeira vez para ler o jornal de vocês. Muito obrigada!”

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Por hoje é isso. Ficamos muito felizes por você ter acompanhado o sétimo episódio da nossa série. Esperamos que você tenha saído mais informado e inspirado. Até a próxima semana!

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